O que temos para um crime não é essa matéria
com que alguns varredores limpam os cadafalsos
«morre jovem o que os deuses amam»
«não há estrada no mundo ó céus para estes»
e outras frases também invenção da polícia
para não deixar beijar a sério ninguém
O que temos para um crime é o nosso sangue
de animais quadripétalos convexos simples
entregues pela frota dos normais aos homens de rosto súplice
e sofrendo nos pés a imensa massa líquida oceânica
Nós somos como a árvore mais jovem
que todo o ano precisa ser cuidada
Mortos vamos e expulsos e incriados
Mas é em nós que os planetas e os mais corpos do espaço
molham as mãos
e esmagam a cabeça
Mário Cesariny, Pena Capital
Quinta-feira, Julho 09, 2009
Domingo, Junho 28, 2009
O Mar em Pessoa
SEGUNDA [Veladora] — ... Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...
PRIMEIRA — Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo?
SEGUNDA — Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...
Segunda-feira, Junho 22, 2009
de manhã
a praia é promessa
casa por estrear
as ondas acordam
estremolhadas
e pequenas partículas
de ínfimos nadas
pairam perto
do olhar
a praia imaginada
tem um barco
a vê-la
um farol
um guarda-sol partido
um coração
como uma estrela
do mar
JATH
a praia é promessa
casa por estrear
as ondas acordam
estremolhadas
e pequenas partículas
de ínfimos nadas
pairam perto
do olhar
a praia imaginada
tem um barco
a vê-la
um farol
um guarda-sol partido
um coração
como uma estrela
do mar
JATH
Quinta-feira, Junho 18, 2009
Que seja!
Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, assim mesmo: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insónia, a contemplar as partículas de poeira soltas no ar, como um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.
Caio Fernando Abreu
Quarta-feira, Junho 17, 2009
Domingo, Junho 14, 2009
Num poema prensado
Pela pressa de dizer
que o coração abranda
cansado no verso
como um motorzinho
de comboio de praia
a sulcar a custo
as linhas indireitas
fixas na areia
as palavras coladas
a cuspo e a tempo
quase no limite
quase na paragem
cardíaca.
JATH
que o coração abranda
cansado no verso
como um motorzinho
de comboio de praia
a sulcar a custo
as linhas indireitas
fixas na areia
as palavras coladas
a cuspo e a tempo
quase no limite
quase na paragem
cardíaca.
JATH
Sábado, Junho 13, 2009
Regresso
Vinha e a nada perguntava
que nome tinha
porque perscrutava
como quem adivinha
que em cada onda
que vai e torna
tudo muda.
Regressa inteiro
parte
para onde for
não leva o nome de nada
ou de ninguém.
Como começa o amor,
a estrada.
JATH
que nome tinha
porque perscrutava
como quem adivinha
que em cada onda
que vai e torna
tudo muda.
Regressa inteiro
parte
para onde for
não leva o nome de nada
ou de ninguém.
Como começa o amor,
a estrada.
JATH
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