Sexta-feira, Novembro 28, 2008

Hasta

de partida para Madrid.
Até já.

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

Desafio aos Habitantes

A meio de uma viagem Águeda-Aveiro, em que tentava elencar os filmes que mais gostei, independentemente do motivo, pensei, muito egoisticamente, que seria interessante conhecer as escolhas cinematográficas dos meus linkados. Vamos lá.... dez filmes. O desafio estende-se aos outros leitores (através do mail, no topo da página). Claro que quem já o fez, basta postar o link. Para além de voyeurista, pode ser enriquecedor.
Aí vai a minha, não por ordem de preferência, mas de lembradura:

1- As Horas
2- Dogville
3- Morte em Veneza
4- Ensaio sobre a Cegueira
5- O Talentoso Mr. Ripley
6- Underground
7- Walking on Water
8- Crepúsculo dos Deuses
9- Cinema Paraíso
10- Má Educação

(ficaram tantos de fora...)

Domingo, Novembro 23, 2008

Toma, Em Bruges!


De tão surreal que parece desafiar o espectador a abandonar o filme a meio, Em Bruges, de Martin McDonogh, é, à partida, um filme sobre nada, uma espécie de moratória que se demora nas paisagens e monumentos medievais da cidade belga. Os diálogos são absurdos, as personagens caricaturais. Dois assassinos são enviados para Bruges, enquanto aguardam ordens de um terceiro. Nada acontece, apenas a espera do castigo, como expiação de pecados cometidos. Como num purgatório. E pouco mais há a acrescentar. E quase tudo há para acrescentar. Se juntarmos a tudo isto o quadro de Bosch, O Juízo Final, percebemos, não só que lugar é este, como o que esperam estes três assassinos, num filme que é meta-filme. Inteligente e nada pretencioso.

Quarta-feira, Novembro 19, 2008

As intermitências da democracia

"Não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia".

Quem diz seis meses, diz um ano ou quarenta e oito. Ou até cair da cadeira.
E venha a ordem e a tradição e a família pro-criativa, que bem precisamos dela. Que bem precisamos dela.

Domingo, Novembro 16, 2008

Imagens de Cegueira

Já me sinto bem, mas naquele mesmo instante pensou que tinha enlouquecido, ou que desaparecida a vertigem ficara a sofrer de alucinações, não podia ser verdade o que os olhos lhe mostravam, aquele homem pregado na cruz com uma venda branca a tapar-lhe os olhos, e ao lado uma mulher com o coração trespassado por sete espadas e os olhos também tapados por uma venda branca, e não eram só este homem e esta mulher que assim estavam, todas as imagens da igreja tinham os olhos vendados, as esculturas com um pano branco atalado ao redor da cabeça, as pinturas com uma grossa pincelada de tinta branca (...). A mulher do médico disse para o marido, Não me acreditarás se eu te disser o que tenho diante de mim, todas as imagens da igreja estão com os olhos vedados, Que estranho, por que será, Como hei-de eu saber, pode ter sido obra de algum desesperado da fé quando compreendeu que teria de cegar como os outros, pode ter sido o próprio sacerdote daqui, talvez tenha pensado justamente que uma vez que os cegos não poderiam ver as imagens, também as imagens deveriam deixar de ver os cegos, As imagens não vêem, só agora a cegueira é para todos. Tu continuas a ver, Cada vez irei ver menos, mesmo que não perca a vista tornar-me-ei mais e mais cega cada dia porque não terei quem me veja, Se foi o padre quem tapou os olhos das imagens, É só uma idéia minha, É a única hipótese que tem um verdadeiro sentido, é a única que pode dar alguma grandeza a esta nossa miséria, imagino esse homem a entrar aqui vindo do mundo dos cegos, aonde depois teria de regressar para cegar também, imagino as portas fechadas, a igreja deserta, o silêncio, imagino as estátuas, as pinturas, vejo-o ir de uma para outra, a subir aos altares e a atar os panos, com dois nós, para que não deslacem e caiam, a assentar duas mãos de tinta nas pinturas par tornar mais espessa a noite branca em que entraram, esse padre deve ter sido o maior justo, o mais radicalmente humano, o que veio aqui para declarar finalmente que Deus não merece ver.
(José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira)

Imagens de Cegueira II


Quarta-feira, Novembro 12, 2008

O crime de Caio II

As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.
Dama da Noite, Caio Fernando Abreu

Sábado, Novembro 08, 2008


há beleza nas folhas frágeis vermelhas amarelas castanhas e no seu desmaio lento, nos braços nus das árvores que imploram um inverno breve. e no sol melancólico e nas núvens rápidas. e nos primeiros frios e nos agasalhos. e nas castanhas e no vinho novo. e nas saudades não sei de quê. e na tristeza que desconhece motivo.

Terça-feira, Novembro 04, 2008

visto a esta luz

Quero-te sempre como nã querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade

Mário Cesariny
visto a esta luz eu diria... que é isso mesmo...

Domingo, Novembro 02, 2008

A hora de Começar (e) a (de) Acabar


Às vezes, no final das peças de teatro, os actores ficam para uma conversa informal com o público - ou pelo menos com o que resta dele. Fazem-se perguntas - quase todas desinteressantes, quase todas para mostrarem o que perceberam e não perceberam da peça e do autor e do actor e das luzes e do figurino e do.
E o actor sentado no palco, onde há tão pouco tempo era uma espécie de entidade meio-humana, meio-divina, é agora um ser que se coça, enquanto vai desconstruindo a mentira que me venderam e para a qual eu paguei o bilhete. Desinteressadamente, desapaixonadamente.
Não é a primeira vez que me acontece. Aliás, acho que sempre acontece. O nome da peça era Começar a Acabar de/com João Lagarto. Aprendi: sempre que disserem «vai haver uma conversa informal com os actores no fim da peça», e se gostei da peça, então é a hora de ir embora.

Sábado, Novembro 01, 2008

Sub-Way

Foi quando, encurralado, desatou aos tiros. Nos primeiro, errou o alvo (na verdade, não conhecia sequer o alvo). Nos seguintes, tocou de raspão vários transeuntes, sem fazer quaisquer vítimas. Outros disparou que deitaram por terra duas senhoras de idade que se rendiam com as suas mãos enrugadas secas de tempo.
A cada estridência, apenas recebia de volta o eco ensurdecedor do disparo.
Pela estação de metro, os corpos multiplicavam-se, numa enorme mancha vermelha que só ele não via graças à discromatopsia que é própria de todo o criminoso.
E tudo indicava que iria ser sempre assim: corpos soterrados numa estação de metro e ele, desesperado-meio-louco-aos-tiros, sem (se) acertar.

JATH