Segunda-feira, Março 23, 2009

Ausência (ou Águas de Março II)

É o título do primeiro poema que me lembro de ter escrito. Devia ter 16/17 anos. Assim meio confessional, meio neo-realista impressionista, meio descritivo, meio naif. Meio a tentar perceber o que sentia, meio a tentar dizê-lo. Assim.


Olho para trás:
Uma praia tão grande,
Tanta areia, tanto mar…
Gaivotas que pousam perto de mim,
Música que vem daquele bar,
Apitos que chegam dos cargueiros ao fundo…
E eu sento-me no paredão e observo tudo isto.




Chove, chove muito
(Nunca me ocorreu que na praia houvesse chuva).
Observo a paisagem.

Lembro-me de outras vezes ter vindo a este lugar,
Raras vezes, poucas vezes.
Lembro-me de passear na areia,
Dar poucos passos – deixei tão poucas pegadas…
Lembro-me que fui uma vez ao bar,
Mas nem reparei na música
E os cargueiros? Nunca me interessaram.

Agora invade-me um desejo,
Uma vontade de caminhar, correr,
Encher a praia de pegadas.
Mergulhar e abraçar o mar,
Como se abraçasse a vida.
Entrar em todos os cargueiros,
Conhecer os pescadores,
Correr com as aves
Ouvir todas as músicas…
A chuva escorrega pelos meus cabelos.
Embrenha-se nos pensamentos
E eu desato a chorar.
Como se chorar ou chover
Pudesse apagar
As pegadas que não cheguei a dar.

É tarde. O bar fechou.
As gaivotas partiram para longe.
O mar está agitado, parece que me acusa,
Parece que me quer castigar.
Os cargueiros afastaram-se,
Vão ancorar nos devidos portos
(Sem que eu neles tenha entrado),
E eu? Sinto-me cansado,
Sem forças para percorrer toda a areia
E preencher a praia de pegadas.

Parou de chover. Vou embora.
Num mergulho,
O mar não encheria o meu abraço
E a música? Se a ouvisse muitas vezes cansaria.
Por mais pegadas que desse, parecer-me-iam poucas
E todo o areal seria pequeno para mim.

Ficam, no espaço hipotético
Que isto ocuparia em mim
Em tamanho semelhante
Ao da vista que tenho daqui,
Ausência e chuva.

(Nem sei porque me lembrei dele...)

2 Mensagens:

Jan disse...

Pensei em algo apropriado para dizer aqui, mas não me ocorre nada. Por isso fica assim. Vazio de palavras, mas cheio de intenção. :-)

joao disse...

Bastante apropriado, não se chamasse o poema Ausência...