Sábado, Janeiro 31, 2009

Aut tace aut loquere meliora silentio...

«Nada digas ou diz só o que vale mais do que o silêncio»
Salvator Rosa

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

A esta hora, e depois de um dia como o de hoje, só fica a ecoar na cabeça, vezes sem conta, aqueles versos de Pascoaes...
A mesma vida, em nós, vivida por ninguém...
Constante calmaria, eterno mar parado...
Este íntimo Alentejo em que se perde a gente...

Domingo, Janeiro 25, 2009

Winters Family Farm II


Winters Family Farm


Estranho Caso

Ontem, após ver o filme O Estranho Caso de Benjamin Button (que aconselho), lembrei-me de um dos comentários que deixei num dos últimos posts:

«há momentos em que escapamos ao tempo para...pensarmos precisamente nele. Tempo e espaço. Passado e presente e futuro. Mas o tempo, como as leis científicas, é descontínuo. E como se entrássemos e saíssemos de universos paralelos, entramos e saímos várias vezes pelas mesmas portas. Que nunca são as mesmas.Como as pessoas que conhecemos e nos afastamos. Para depois voltarmos e as encontrarmos de novo. Ou mesmo sem voltarmos, elas regressam do passado e tornam-se presentes. De novo. Descontinuidade...»

Não só disto fala o filme mas também disto.

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

A casa o barco

Nas noites de inverno
A casa tomava forma de barco
E os objectos periclitantes balouçavam
Húmidos de maresia
Os habitantes doentes de escorbuto
E de sonharem lugares impossíveis
Tombavam no convés

Nas noites de inverno
O capitão deitava-se a escrever
O diário de bordo existencialista.
Começava: "à casa, à vista, à mar"
Nas noites sem lua nem estrelas
Nem tumultos nem tempestades
"à beira de nenhum porto"

Nas noites de inverno
A noite era o alto mar vazio
Interminável, infinito.
E a casa o barco rumando
Parado encalhado com raizes
Num sono intermitente
O capitão também ele adoecia

Segunda-feira, Janeiro 12, 2009

Há lugares

que nos chamam.
De longe. Chegam até nós na forma de uma imagem, um pensamento, um cheiro, uma memória, um nada. Enquanto as pessoas se calam lentamente, a voz dos lugares cresce até ser impossível ignorá-la. E toda a gente sabe que os lugares do passado não são visitáveis, nem existem mais. Só a sua voz, como um vento de fim de tarde ou o canto de uma sereia. Ou.
E há lugares que renascem das cinzas e se erguem novos de um passado devastador. Como após uma guerra, a reconstrução. E caminham até nós pelos seus próprios pés ou pela força da sua voz, que nos chama, de longe.
JATH

Sexta-feira, Janeiro 02, 2009

Feliz Ano Novo

A entrada no novo ano fez-me lembrar um conto do Rubem Fonseca. Tempos de crise, assimetrias sociais. Leiam o conto ou fiquem apenas com esta pequena amostra.
Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.
Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros. (...) De manhã a gente enche a barriga com os despachos dos babalaôs, eu disse, só de sacanagem.
As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro alto, já viu como as branquelas dançam? Levantam os braços pro alto, acho que é pra mostrar o sovaco, elas querem mesmo é mostrar a boceta mas não têm culhão e mostram o sovaco. Todas corneiam os maridos. Você sabia que a vida delas é dar a xoxota por aí?
Pena que não tão dando pra gente, disse Pereba. Ele falava devagar, gozador, cansado, doente.
Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma punheta. Fecha os olhos e manda brasa.
Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.
Feliz Ano Novo, Rubem Fonseca