Sexta-feira, Maio 29, 2009

Apetecia

ficar ali, a tarde toda. Um bom livro, os pés descalços pousados na cadeira da frente, auriculares com boa música, o mar em frente, muito calor, como se a vida começasse só depois, depois de me cansar de ficar ali, parado. Ou depois do mergulho. Ou depois de o sol adormecer, rosto encostado à linha fina do lençol azul prateado.
Houve (apenas?) tempo para o café, para a foto e para o deslumbre...
JATH

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Esperiência

Da espera fizeste impaciência
Da noite pequeno-almoço inglês
Do erro da espera experiência
Da impaciência precipitação
E desta o erro pornográfico
De escrever mau português
No modo seráfico
De quem o faz no poema

JATH

Domingo, Maio 24, 2009

não escrevo a ninguém, deixei de dar notícias. ninguém precisa de saber onde me encontro, se cheguei bem, se vou partir, se mudei de rosto ou de máscara.

um pássaro, dois homens puxando redes.

até quando poderei suportar a minha própria ausência?

e a vertigem?

(…)

Al Berto

Sábado, Maio 23, 2009

Tower of Song (a ouvir)


Now I bid you farewell, I dont know when Ill be back

There moving us tomorrow to that tower down the track

But youll be hearing from me baby, long after Im gone

Ill be speaking to you sweetly

From a window in the tower of song

Yeah my friends are gone and my hair is grey

I ache in the places where I used to play

And Im crazy for love but Im not coming on

Im just paying my rent every day

Oh in the tower of song.

Leonard Cohen, Live in London, Julho de 2008

Terça-feira, Maio 19, 2009

I am a bird now VIII


Antony (not to mention his Johnsons) is a creature in flight - flight from the assumptions we all make about sex, about identity, about the nature of the soul. He is nothing if not elusive.

(The Independent)
One dove
Youre the one Ive been waiting for
Through the dark fall
The nightmares the lonely nights

I was born
A curling fox in a hole
Hiding from danger
Scared to be alone

One dove
To bring me some peace
In starlight you came from the other side
To offer me mercy

One dove
Im the one youve been waiting for
From your skin I am born again
I wasnt born yesterday

You were old and hurt
I was longing to be free
I see things you were too tired
That you were too scared to see

One dove
To bring me some peace
In starlight you came from the other side
To offer me mercy

Ontem, no coliseu do Porto

Domingo, Maio 17, 2009

Arrogância Intelectual, não!

Tenho outros por dentro que nem eu entendo, minha teoria é que a gente nasce com várias possibilidades e, quando uma predomina, as outras ficam lá dentro, como alternativas descartadas, definhando em segredo. E, vez que outra, querendo aparecer. Tudo bem, viver juntos é ir descobrindo o que cada um tem por dentro, os 17 outros de cada um, e aprendendo a viver com eles. A gente se adapta. Um dos meus 17 pode não combinar com um dos 17 dela, então a gente cuida para eles nunca se encontrarem. A felicidade é sempre uma acomodação. Eu estava disposto a conviver com ela e suas 17 outras, a desculpar tudo, delegado, porque a ponta do seu nariz mexe quando ela fala.
Mas aí surgiu a décima oitava ela. Nós estávamos discutindo as minhas obsessões. Ela estava se queixando das minhas obsessões. Não sei como, a discussão derivou para a semântica, eu disse que "obsedante" e "obcecante" eram a mesma coisa, ela disse que não, eu disse que as duas palavras eram quase iguais e ela disse "Rará", depois disse que "obcecante" era com "c" depois do "b", eu disse que não, que também era com "s", fomos consultar o dicionário e ela estava certa, e aí ela deu outra risada ainda mais debochada e eu não me aguentei e o Aurelião voou. Sim, atirei o Aurelião de capa dura na cabeça dela. A gente aguenta tudo, não é delegado, menos elas quererem saber mais do que a gente. Arrogância intelectual, não!
Luís Fernando Veríssimo, O Que Cada Um Tem Por Dentro

Terça-feira, Maio 12, 2009

Estava escrito no Caderno de Linhas

Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.


Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.

Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.


Clarice Lispector

Domingo, Maio 10, 2009

Estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny
(foto de mpires)

Sexta-feira, Maio 08, 2009

Passagem das horas

desmonta as horas
de espera
em gestos secos
- gargalhos suspensos
na primavera
adiada


inutilidades lentas
pormenores vãos
até adormeceres
- sem quereres
mais nada

JATH

Segunda-feira, Maio 04, 2009

pois é pois é

Clarisse Lispector,
A senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos

Esta Adília Lopes sabe-a toda... e parece que não é só a senhora Clarisse (nome que gosto muito e escritora que gosto ainda mais) que se esquece de dar de comer ao peixe. Ela acaba este poema a dizer que a vida é andar para cá e para lá, mas com aspas que isto é citação. E nesse andamento mais ou menos des/governado vão-se os dedos; ficam-se os anéis, que é como quem diz o aquário. E os textos.
Boa semana.
JATH

Sábado, Maio 02, 2009

Como a estrada começa