Domingo, Junho 28, 2009

O Mar em Pessoa



SEGUNDA [Veladora] — ... Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...

PRIMEIRA — Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo?

SEGUNDA — Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...
Foto do Nuno e texto de Fernando Pessoa, O Marinheiro

Segunda-feira, Junho 22, 2009

de manhã
a praia é promessa
casa por estrear
as ondas acordam
estremolhadas
e pequenas partículas
de ínfimos nadas
pairam perto
do olhar

a praia imaginada
tem um barco
a vê-la
um farol
um guarda-sol partido
um coração
como uma estrela
do mar

JATH

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Que seja!

Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, assim mesmo: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insónia, a contemplar as partículas de poeira soltas no ar, como um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.
Caio Fernando Abreu

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Do Bar(r)il

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Do Bar(r)il

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Do Bar(r)il

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Domingo, Junho 14, 2009

Num poema prensado

Pela pressa de dizer
que o coração abranda
cansado no verso
como um motorzinho
de comboio de praia
a sulcar a custo
as linhas indireitas
fixas na areia
as palavras coladas
a cuspo e a tempo
quase no limite
quase na paragem
cardíaca.

JATH

Sábado, Junho 13, 2009

Regresso

Vinha e a nada perguntava
que nome tinha
porque perscrutava
como quem adivinha
que em cada onda
que vai e torna
tudo muda.

Regressa inteiro
parte
para onde for
não leva o nome de nada
ou de ninguém.

Como começa o amor,
a estrada.

JATH

Domingo, Junho 07, 2009

reconheces um dragão
pela distância
um dragão não se aproxima
da tua realidade
senão para a queimar
olha de cima
sem abanar a cauda
sem perder altura
sem perder candura
reconheces um dragão
pela sua ausência
um dragão nunca está
somente se insinua
pela sua alma nua
corpo im pre visível
pela permanente recusa
sabe-lo pela labareda
prenúncio da queda
pelo que aprendeste
sobre um dragão
deves afastar-te ao pressenti-lo
assim mesmo, a pensares-te ridículo
humano. a arrastares as tuas asas
aladas e depiladas
para longe
antes que te conheça.
JATH

Sábado, Junho 06, 2009

If it be your will

If it be your will
That I speak no more
And my voice be still
As it was before

Leonard Cohen, desta vez pela voz das irmãs Webb. Supera a versão do Antony?
(Direitinho ao Nuno, com um abraço)

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Resposta à M.

A M. escreveu-me uma carta
A dizer que não matava mais ninguém.
Sempre que cometia um crime
O Instante era vertigem
Que se extinguia quando o corpo exangue
Se esvaía em sangue lento
E jazia aberto o peito dela
Deitado sobre a sombra
Do sujeito morto
Até a dor passar.

E de novo a fome
De sangue per-vertido
A M. diz que mata para viver
O instante que quer prolongar
Falece e nela surge a ferida fatal
Escreveu a dizer que morre
Por não matar mais ninguém.
Não li a carta senão
Depois de a estrangular
Não gosto nada de sangue.


JATH